Mateus está morto. Seu tronco está no chão da biblioteca comunitária que construímos juntos. Vão encontrar pedaços de seu crânio caídos sobre as páginas de Dostoievski, e manchas de sangue na capa do Grande Sertão: Veredas.
A polícia pretenderá farejar suspeitos. Me buscarão para testemunhar, mas não me encontrarão para depor. Tudo está bem arranjado. Estou na poltrona dezessete do ônibus Empresa General Artigas em direção à Montevideo. Faltam 20 minutos para sairmos.
Sinto o maço de notas que carrego dentro do meu coturno. Desta vez não me importam os guardas na fronteira do Chuí, não estou revendendo ecstasy direto de Amsterdam. Desta vez, o que me preocupa vem de um cano sujo, esgoto onde espreita o que não quero ver.
Penso se é possível recomeçar a vida do zero, imagino meu novo nome, que hobbies poderei me inventar, em quais grupos me infiltrarei para fazer realidade meu novo eu? Estupidez. Ainda que trabahasse numa carniceria em Montevideo, me fizesse chamar de Miguelito de la Frontera, e uma cirurgia plástica escondesse meu lábio leporino, não recomeçaria do zero. O zero não existe. O contrato está assinado e não dá pra dizer que na hora eu fazia figa.
16 minutos. Um rolo compressor passa por cima do templo budista dentro de minha cabeça: Mateus poderia estar vivo. O sonho da biblioteca comunitária morreu com ele. E fui eu quem abriu a porta para o desastre. Mas a abri ou fiz uma sugerência que ele aceitou? A liberdade era dele e a usou como lhe pareceu. Quem pode me culpar?
Todos sabíamos os riscos que corriamos. Apesar de que Kátia nunca quis escutar sobre os métodos que a ABIN utilizava para nos vigiar. Nem dos grampos que eu peguei o do trackeio do celular nas manifestações. O cerco estava fechando e eu não quero morrer por Canudos.
12 minutos.
Assim eu me engano. Desvio o olhar dessas palavras em neon fustigando minha consciência: Mateus estaria vivo agora, mas você o matou. E o bolo de notas de cem dentro do meu coturno riem ao escutar a voz de Kátia repetir que eu entregaria qualquer um pra salvar o meu rabo.
Mas ela nunca entendeu que eu sou Hamlet. Não fujo da verdade, senão que a carrego nos meus ombros e meus movimentos de indecisão são calculados, estou expondo o rei e a rainha em sua trama vil. Mas é porque sei do que são capazes que caminho dando voltas. Só eu estive lá, por trás da porta de madeira, filmando enquanto o projétil rompia a epiderme, derme, capa de gordura e o osso parietal esquerdo de Mateus.
8 minutos para partir e são 22 horas de viagem até o terminal de Tres Cruces. 22 horas de tormento se eu não descer agora e plantar a verdade em terra firme. O motorista ainda não subiu no ônibus. É tempo de reescrever a trajetória de meu destino.
Levanto-me da poltrona número dezessete, pego a mochila e baixo a escada apressado, como Dom Pedro grito ao anais da história: EU FICO! Tenho as provas, os registros e os contatos no departamento de inteligência. Mateus será nosso mártir, contaremos sua história:
HEROÍSMO NA FAVELA, JOVEM MORRE PELA EDUCAÇÃO
Esbarro num tipo estranho na sala de embarque. Ele deixa cair os óculos escuros, e quando viro para pedir desculpas vejo o revólver no seu cinto. Nos encontramos por fim, seus olhos e os meus, como num cenário de faroeste. Estão me perseguindo, é claro que esse é um P2, mas me amedontrarei?
Não. A biblioteca sobreviverá. Ombro a ombro com Kátia faremos um documentário e lançaremos no youtube. Vai ser viral. Nossa história será a chama firme aquecendo o coração revolucionário de meus companheiros. Posso sentir o cheiro de suor das passeatas que faremos em frente ao Ministério Público.
6 minutos. Não posso me esconder do destino, eu tenho o vídeo em minhas mãos, só preciso mostrá-lo. Vou chamar Kátia e decidimos. Duas pessoas pensam melhor que uma. Será que é melhor mostrar agora o assassinato de Mateus ou colocamos junto ao documentário? Deveriamos contatar a Mídia Ninja, Intercept? Ó o peso da glória sobre minha cabeça!
Chego à rua, o número de Kátia está na tela. O botão verde e o botão vermelho, como as pílulas de Matrix. Pressiono furiosamente o botão verde. Lembro dos esquadrões da morte e do movimento Mães de Maio. Delegado Fleury e o pau-de-arara. Operação Condor e o petróleo vendido para Chevron assim que caiu a Dilma.
O toque do telefone soa uma vez e logo duas vezes. Respiro fundo. Faltam 4 minutos para sair o ônibus. A cada toque do celular meu coração se afoga. Eu só preciso colocar um cadeado em minhas pernas. 3 minutos. O homem da jaqueta de couro sai, me procura, me vê, para, vai perto do orelhão que ninguém mais usa. Está me escutando. Kátia atende o telefone. Esse cara é da ABIN, tenho certeza. Espera que eu dê com a língua nos dentes e que jogue fora todo o acordo. Ah sim, mas eu não sou tão tolo!
Desligo o aparelho. Irei até a casa dela caminhando. Tudo isso é importante demais para falar por aqui. Agarro minha carteira de Lucky Strike, puxo um dos cigarros como um mártir da salvação e lhe prendo fogo com bravura. Vejo o relógio digital perto do portão de embarque.
Faltam 2 minutos. 2 pequenos e minúsculos minutos. Em apenas 2 minutos quando o ronco do motor a diesel levar Montevideo de volta ao exílio, eu estarei me erguendo frente a injustiça e deixarei para trás essa mancha de esgoto que me comprou e que me faz tão podre. Malditos sejam! Malditos sejam!
Minhas pernas cobram o controle. Elas gritam: exílio! Exílio! e saem disparadas ao portão de embarque, carregando-me com elas, ainda que toda mente lute contra essa debilidade. Pobre de mim que tenha pernas tão mais decididas que eu! O agente da ABIN sorri.
Subo ao onibus aceitando a minha condição de humano. O motorista entediado verifica minha passagem. Minha poltrona é a dezessete. Que me chamem de covarde os que sentam nas suas poltronas não numeradas.
Eu não estive lá. Eu não escutei nenhum disparo. Eu não filmei ninguém atirando em nenhum homem desarmado. Como em 1984 apagarei o registro que guardo no celular. Saberei da verdade sem saber da verdade. Se não tem registro é que não existiu. Nunca existiu! Nunca existiu!
Assisto o vídeo no celular. Eu conheço esse rosto de bacon frito que dispara. Eu vejo os miolos voando nos livros.
Mateus poderia estar vivo.